
Depois de algum tempo escrevendo, dobrou o papel e colocou no bolso, e ficou pensando qual seria a melhor hora de entregar.
Resolveu sair, mas antes de sair, foi até ela e disse:
- É pra você.
- Pra mim? Mas o que é?
- Você vai ver.
Desceu as escadas e saiu pelo portão.
Eis o que estava escrito:
“Estava querendo falar faz algum tempo, deixei transparecer, fiz questão de demonstrar…
Mas vamos começar pelo começo…
Amo a Deus, e amo muito acredito nele, e acredito que ele é amor, e é isso que está me fazendo escrever esta carta.
Te amo também, e por isso não quero ficar mais omitindo fatos.
Acredito que Deus me ama do jeito que eu sou, pois sou eu mesmo, uma pessoa que gosta de todo mundo, que ama viver, que gosta de ajudar, que odeia maltratar e ver os outros maltratarem os outros. Tenho certeza que Ele me olha por dentro, que Ele sabe que eu rezo, que faço Seus trabalhos, não como antes, mas, mas ainda faço alguns.
Falando em trabalhar para Deus… Vamos falar da RCC (Renovação Carismática Católica), eu não quero mais participar de um lugar em que as pessoas julgam as outras, descriminam, e acham que só eles são os certos. Por isso me afastei, não quero participar disso, não quero ficar com raiva… Tenho certeza que muitas pessoas que nem participam da igreja, estarão no céu…
Voltando…
Essa pessoa que você conhece. Continua e vai sempre continuar sendo a mesma pessoa, que te abraça, que deita do seu lado que te dá carinho, que ama todo mundo em casa. Mas é preciso que eu conte uma coisa, que há tempos eu quero contar, mas parece que você não quer saber…
Quando eu tinha 10 anos, e estudava lá no Gustavo Barroso, que eu me lembre, foi umas das primeiras vezes que eu tive o interesse e a curiosidade, até então eu não sabia direito o que era certo ou errado… Ou o que a sociedade acha o que é certo ou errado. Mas tudo bem… Os interesses vieram e foram, mas nunca desapareceram. Fui crescendo, cada vez mais participativo com a Igreja… Mas até ai tudo bem… Era tudo normal… Pelo menos pra mim.
Com 17 anos, sai do colegial, já tinha namorado umas 3 meninas, mas não tinha dado certo nenhuma. Ok. Entrei para a RCC, e ai sim começou o meu martírio, a minha dor… Meu sofrimento.
Amava, e ainda amo está na presença do Senhor, de rezar. Mas o que a RCC me colocava como “modo de vida”, era uma coisa que eu não queria, eles pregavam que o mundo inteiro é ruim e que só quem está na RCC, é bom, só eles vão para o céu. E mesmo não concordando, não aceitando, continuei a participar, e isso me machucava, pois estava ali só para mostrar para os outros, mostrar para a minha família, que eu era um rapaz bom, de boa índole, honesto, que gosta de ajudar os outros.
Passava horas na frente do Santíssimo, pedindo que ele me libertasse, que tirasse toda a sujeira que existia em mim, chorava como se eu morresse naquele momento iria direto para o inferno. Dias e dias de oração, e a cada dia eu ficava mais triste, ficava pior. E com certeza… Hoje eu sei que Deus não queria aquilo de mim.
E os anos foram passando, e eu vivendo com uma mascara, sorrindo por fora, e triste por dentro, mostrando pra todos um Ronaldo, moldado pela igreja, e não exatamente o que eu era.
E nesse período eu namorei várias meninas, mas não conseguia ficar nem 3 meses com cada uma delas.
Até que chegou o final de 2004, inicio de 2005, onde resolvi dar um basta, e viver a minha vida do meu jeito, sempre com Deus no meu caminho, mas não precisando mais da RCC pra me guiar, me machucar, e guiar por um caminho que eu acho que é errado. No principio sofri um pouco, fiquei sem saber o que fazer, mas já estava feliz, tinha me libertado.
Estava realmente amando e sendo amado.
Não sei se você, já entendeu onde eu quero chegar… Espero que sim.
Mas foi graças a Deus, que o Pe. Tadeu foi colocado no meu caminho novamente. Sentei com ele e conversei muito, e muitas vezes. Ele me explicou muitas coisas, falou que a Igreja não é certa em tudo, que era impossível a Igreja acreditar que algumas pessoas vão para o inferno, só porque pensam ou amam diferente das outras, que o que vale é o coração e as boas obras. Não me impediu de comungar, e me explicou também que só não podia comungar, aqueles que machucam os pequenos, e esse não é o meu caso.
Hoje estou muito bem comigo mesmo, com minha consciência, com meu coração, com Deus. Pois agora posso olhar pra Ele por inteiro, sem me podar. Tenho muitos amigos que eu amo e que gostam de mim do jeito que eu sou.
Amo minha família, cada um deles, e espero que continuem me amando, pois eu não mudei nada, sou o mesmo, do mesmo jeito.
Que Deus nos ajude, e nos una cada vez mais no Seu amor.
Beijo do filho que te ama muito. “
Depois de algum tempo ele voltou para casa, e para a sua surpresa um sorriso o aguardava. Nenhuma palavra sobre a carta foi dita, nenhum questionamento e não foi necessário… ele estava agora mais feliz que antes.
…são pensamentos soltos
traduzidos em palavras
pra que você possa entender
o que eu também não entendo…
(Rogério Flausino)